"Quando a doença fala mais alto que a nossa voz": pesquisa psicanalítica com adolescentes e médicos reumatologistas pediátricos em um ambulatório de transição

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Data
2024-04-09
Autores
Rabelo, Maria Tereza Piedade [UNIFESP]
Orientadores
Len, Claudio Arnaldo [UNIFESP]
Tipo
Tese de doutorado
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Resumo
Introdução: Jovens com longo histórico de adoecimento na infância e adolescência podem apresentar, após a entrada na fase adulta, importante declínio com os cuidados, desde piora na adesão ao tratamento até mesmo seu abandono. Por conta disso, medidas, como criação de ambulatórios de transição com diferentes formatos, publicações de diretrizes e outras iniciativas, passaram a ser tomadas por grandes centros de saúde ao redor do mundo com o intuito de minimizar essa questão. Apesar da vasta literatura internacional sobre o tema, há escassez de pesquisas que privilegiam a voz dos sujeitos adoecidos e suas lógicas subjetivas, assim como de estudos acerca dos processos de transição que também abarcam projetos de vida. Objetivo: Este estudo visa construir uma metodologia de intervenção psicossocial que auxilie o processo de transição dos pacientes, visando sobretudo à reinserção social. Essa metodologia se norteia principalmente por teorias psicanalíticas de Freud e Lacan e, também, pela proposta de um trabalho interdisciplinar da psicanálise com o campo da Filosofia da Saúde. Esta proposta considera, em especial, a subjetividade oriunda do impacto da experiência de adoecimento. Método: O local é o Ambulatório de Transição do setor de Reumatologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Unifesp. Pesquisa com método psicanalítico. A coleta de dados ocorreu em três etapas: (1) entrevistas em profundidade com pacientes do ambulatório de Transição; (2) entrevistas em profundidade com médicos reumatologistas pediátricos e residentes médicos do programa de Reumatologia Pediátrica; e (3) intervenção em grupo interdisciplinar: Psicanálise e Filosofia da Saúde com pacientes do ambulatório de Transição. A análise dos dados foi realizada por meio do método psicanalítico e será discutida a partir das teorias psicanalíticas de Freud e Lacan. Resultados: O tema da transição da pediatria para os serviços de saúde de adultos não apareceu como o elemento principal mobilizador de angústia, mas, sim, a vida adulta e a falta de perspectiva futura decorrente das limitações impostas pela doença. Foi identificado o efeito de devastação do sujeito por meio do sintoma “falados pela doença” evidenciada a partir da paralisia do movimento seja na via da inibição, seja no fenômeno de abalo fantasmático. A relação médico–paciente pode contribuir com a devastação em virtude da relação estrutural do discurso médico com a subjetividade. O trabalho em grupo constituiu-se como um espaço de elaboração subjetiva ao produzir efeitos de sujeito. Conclusão: Há um risco da hipervalorização da discussão a respeito do ganho de autonomia do indivíduo na área da saúde em detrimento do debate sobre a necessidade de implementação de medidas que possam reparar desigualdades. Os jovens, apesar de possuírem importantes conhecimentos técnicos e habilidades cognitivas a respeito da autonomia em saúde, podem permanecer paralisados na doença. Portanto, faz-se necessária a promoção de espaços no ambulatório de transição que considerem a subjetividade.
Introduction: Young individuals with a history of childhood illnesses can show, after entering adulthood, important decline in care, worsening adherence to treatment, and even abandoning it. Thus, initiatives such as the establishment of transition outpatient clinics with different formats, publications of guidelines, and others have been undertaken by large health centers around the world aiming to minimize this issue. Despite the vast international literature on the subject, there is a lack of research that focuses on the voice of subjects with illnesses, their subjective logic, and the transitioning processes that also cover life projects. Objective: This project aims to develop a psychosocial intervention methodology that could potentially help in the Patients' Transition Process, focusing on social reintegration. This methodology is mostly guided by psychoanalytic theories of Freud and Lacan, as well as the proposal of interdisciplinary work between psychoanalysis and the field of Health Philosophy. This study particularly considers the subjectivity emerging from the impact of the experience of being ill. Method: The Transition Outpatient Clinic of the Pediatric Rheumatology in the Department of Pediatrics at Unifesp served as the research field. The study used a psychoanalytic approach. The data collection took place in three stages: (1) in-depth interviews with patients of the transition outpatient clinic (2)In depth interviews with rheumatologists and medical residents of the Pediatric Rheumatology program; and (3) intervention through interdisciplinary groups: Psychoanalysis and Health Philosophy with patients from the transition outpatient clinics. The analysis of the data was made by the psychoanalytic method and will be discussed based on the psychoanalytic theories of Freud and Lacan. Results: The theme of the transition from pediatric to adult health services didn’t emerge as the main element mobilizer of anguish, but, instead, the adult life and the future lack of perspective that takes place due to the limitations imposed by the disease. The effect of devastation of the subject was identified through the symptom “spoken by the disease” evidenced by the paralysis either in the inhibition way or in the phenomenon of phantasmatic shock. The doctor-patient relationship can contribute with the devastation in virtue of the structural relationship between the medical discourse and the subjectivity. The group work was constituted as a space for subjetive elaboration by producing subjective effects. Conclusion: There’s a risk of overvaluing the discussion about the gain of autonomy of the individual in the health area to the detriment of discussions about the need of implementing measures that might be able to repair inequalities. Despite having the knowledge and cognitive skills about the autonomy in health, young people can remain paralyzed in the illness. Therefore, it’s necessary to promote spaces in the transitional outpatient clinic that considers the subjectivity.
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Citação
RABELO, Maria Tereza Piedade. "Quando a doença fala mais alto que a nossa voz": pesquisa psicanalítica com adolescentes e médicos reumatologistas pediátricos em um ambulatório de transição. 2024. 284 f. Tese (Doutorado em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria) - Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, 2024.